Governo divulga carta à imprensa - 01/11/2006 11:50:00
Carta à Imprensa
Nunca se viu uma cobertura de eleição no Paraná tão tendenciosa como a que aconteceu na campanha política de 2006. Da mesma forma, nunca se viu tanta parcialidade em uma cobertura de entrevista coletiva com o governador quanto a que a mídia divulgou nesta terça-feira (31).
O relatório que segue dá a exata medida de como se comportou a imprensa no 1º e no 2º turnos. Os números são claros, inquestionáveis, definitivos. Contra eles não há argumentos.
Mais uma vez, o Sindicato dos Jornalistas do Paraná reage de forma equivocada, confirmando o triste papel que vem desempenhando nestes últimos anos. Não é a liberdade de imprensa que o Sindicato defende, é a liberdade das empresas de manifestarem suas opiniões, tendências, e preferências.
Há uma distância muito grande entre liberdade de imprensa e a opinião dos patrões. No balanço anexo isto fica muito claro.
Algumas empresas tomaram um lado nesta eleição e todo noticiário expressou esta opção, especialmente o jornal Gazeta do Povo e TV Paranaense. Pena que, como é tradição em alguns órgãos da imprensa brasileira – citam-se aqui o jornal O Estado de São Paulo e a revista Carta Capital –, os veículos de comunicação do Paraná não tenham assumido claramente a opção por uma das candidaturas. Seria mais honesto.
A reação do governador à cobertura facciosa das eleições é legítima. Ele reage a uma agressão continuada das empresas de comunicação. Em nenhum momento ele se voltou contra o jornalista - o profissional individualmente. Insurgiu-se contra os veículos. É lastimável que alguns jornalistas tenham assumido de forma tão veemente a defesa da empresa e não da imprensa.
Regras mínimas, óbvias como ouvir o outro lado, foram simplesmente esquecidas em favor da militância contra a candidatura de Roberto Requião.
O caso da atribuição ao governador de propriedades no exterior, que todos sabem mentiroso e repelente, foi noticiado como fato inquestionável, tão certo quanto o sol, o dia ou a noite, não dando a Requião a possibilidade de restabelecer a verdade.
Na entrevista, alguns jornalistas reagiram como se a liberdade de imprensa estivesse sendo naquele momento ofendida, vilipendiada. Não perceberam que o governador estava criticando a posição facciosa de algumas empresas no processo eleitoral, e não a liberdade dos jornalistas de se manifestar.
É ainda patético ver alguns colunistas, que durante todo o processo eleitoral fizeram uma clara campanha por determinado candidato, manifestarem-se nesta terça-feira (31) ofendidos com as críticas do governador. Suas colunas transformaram-se em panfleto, em bandeiras desfraldadas em favor do candidato de oposição. Nada de mais, já que assinavam em baixo
(ou em cima ) sua clara opção.
Foi constrangedor ter ouvido nas emissoras de rádios, algumas delas vibrantemente engajadas em favor do candidato derrotado, reagirem à contundência das observações do governador, como se tivessem atuado de forma isenta durante a campanha.
Para eles, não é truculência tentar impor um só ponto de vista, um só pensamento. Para eles, não ofende a liberdade dos cidadãos ouvir um só ponto de vista, a mesma e incontestável opinião. Para eles, liberdade é permitir que façam toda sorte de acusações que caluniem, difamem, infamem. E que ninguém reaja.
Os 21 anos de ditadura militar nos ensinaram uma lição muito dura que alguns jornalistas ainda se recusam a assimilar. Naquele período, a liberdade de imprensa foi sufocada, mas as empresas que apoiavam o regime preferiram se submeter à censura, sendo coniventes com a tortura, o extermínio e a repressão. Livres, desimpedidas, engordadas pelas verbas oficiais e beneficiadas pelas concessões de canais de televisão, elas cresceram, expandiram-se, triturando a liberdade de informação. As mesmas empresas que hoje vêm reivindicar um passado que nunca tiveram, posições a que nunca foram fiéis, predicados e postulados absolutamente estranhos à sua história.
Quanto cinismo, quanta hipocrisia, quanta mentira. E alguns jornalistas, talvez desinformados, ainda saem em defesa dessa gente.
O relatório que segue é um estudo inicial que está sendo feito sobre o comportamento da imprensa paranaense nas eleições, de 1990 aos dias de hoje. Esperamos estar contribuindo para a defesa, de forma verdadeira e autêntica, da liberdade de imprensa.
Por fim, já que alguns veículos e jornalistas reagiram de forma tão valente à entrevista do governador, para o bem da liberdade de imprensa, para o bem da informação, gostaríamos de ver este relatório publicado.
Assessoria de Imprensa do Governo do Paraná.
Curitiba, 31 de outubro de 2006
Relatório:
A Imprensa do Paraná e a Eleição
A mídia ficou devendo nesta eleição. Os veículos de comunicação do Paraná perderam uma ótima oportunidade para consolidar posições no mercado editorial, inclusive na concorrência entre si. A parcialidade marcou a cobertura eleitoral. Gazeta do Povo e Jornal do Estado deram tratamento editorial favorável a Osmar Dias.
A postura tendenciosa se deu especialmente na linha de abordagem. Tendo a liberdade de expressão como álibi, os veículos mais críticos superdimensionaram problemas que habitualmente são desafio para qualquer administração pública ou exploraram fatos que estão sob investigação da Justiça e que, ainda sem conclusão, não autorizam qualquer acusação.
A parcialidade é flagrante e está refletida nos números. Roberto Requião, desde o início da campanha em 1º de julho até o dia da eleição, teve a sua candidatura atacada em 6.028 matérias nas mídias nacional e regional, exclusivamente em temas ligados à eleição. Já contra Osmar Dias pesaram 2.820 reportagens, quantidade que não chega à metade do que foi adverso para Requião, o que lhe garantiu uma exposição favorável expressivamente maior na comparação entre os concorrentes.
O rigor
O aperto a Requião fica mais evidente entre os veículos de maior circulação e audiência. Sabidamente o jornal mais lido, a Gazeta do Povo, por exemplo, respondeu por 837 registros negativos. Com Osmar Dias, o impresso de Francisco Cunha Pereira foi bem mais condescendente: foram tão somente 298 matérias negativas . A Folha de Londrina, segue a mesma linha, o número de notícias negativas para Requião é ainda maior, na comparação com o total de matérias que falaram dele. Foram 719, que representaram 52,9% do total. Para Osmar, a FL deu 288 matérias negativas, o equivalente a 38,1% do total.
Na TV Paranaense, que atinge uma quantidade infinitamente maior de eleitores, o quadro não é muito diferente. Enquanto Requião teve 20 reportagens negativas no Paraná TV 2ª edição, noticioso de maior audiência da televisão paranaense, Osmar Dias teve apenas cinco notícias adversas . Se há matérias positivas no telejornal em maior quantidade para os dois candidatos, é porque o teor destes assuntos se limitou em boa parte dos casos às agendas de ambos e às pesquisas, que invariavelmente colocavam Requião à frente de Osmar.
Lugar de destaque
A frieza dos números ganha dimensões mais importantes quando se analisa a posição das matérias nas respectivas mídias, levando-se em conta todos jornais, sites e emissoras de TV. Enquanto Requião teve 250 chamadas de capas negativas nestes quatro meses, Osmar Dias foi atingido desfavoravelmente em 77 vezes. Como manchete principal de capa, foram oito contra o governador e nenhuma contra Osmar Dias. A visibilidade das matérias negativas no miolo dos impressos, com exposição geralmente no alto das páginas políticas, também dá ampla vantagem para o candidato oposicionista. No período foram 526 inserções adversas para Requião e 196 para Osmar.
O conteúdo
E é no conteúdo da notícia, com a abordagem nele empregada, que reside o maior desgaste para o governador. Entre os fatos com desdobramentos diretamente eleitorais, contrários ao governador, está o desgaste político decorrente da anulação da aliança PMDB/PSDB. Foram 473 registros negativos, que correspondem a 64% de tudo aquilo que se falou do assunto. Mais para o final da campanha em primeiro turno, o caso Razera entrou na mídia causando sério desgaste à imagem de Requião. Foram 505 matérias, respondendo por 84,7% do tema na mídia.
Tratamento desigual
Osmar Dias também teve fatos que lhe causaram desgaste. Mas isso se deu numa quantidade de matérias bem menor do que os casos relacionados ao adversário. Foi assim com a fazenda Lagoa da Prata, que teve 210 reportagens críticas ao pedetista, e as denúncias contra o vice Derli Donin, que resultaram em apenas 79 matérias.
O governo como tabela
Mas o candidato Osmar Dias tirou mais proveito do noticiário quando a mídia, particularmente os veículos da RPC, voltou suas baterias contra o governo estadual, com reflexos sobre o candidato à reeleição (mesmo sem citar o governador). Temas ligados à saúde, pela suposta falta de UTIs, e à educação, pelo vandalismo e falta de estrutura de funcionamento em estabelecimentos de ensino, ganham as páginas da Gazeta, com fotos, e as imagens dos telejornais da TV Paranaense.
A segurança pública, contudo, é o assunto mais visado na esfera de governo. O roubo de um toca-CDs por policiais militares que patrulhavam o centro histórico de Curitiba, fato muito explorado no início de agosto pela RPC, ilustra uma postura editorial. Foram 13 matérias em TVs em aproximadamente 15 dias, incluindo aí as repercussões no Fantástico, Jornal da Globo, Hoje e Fala Brasil. Entre os jornais foram 5 matérias. A Gazeta do Povo foi o principal veículo impresso a tratar negativamente do assunto. Neste período, ainda permeia o noticiário a hipotética infiltração do PCC no Estado, embora em menor peso do que o verificado em meses anteriores.
O ápice de fatos relacionados ao governo, com reflexos sobre a eleição, se dá poucos dias antes da eleição em primeiro turno. No final de setembro ganha destaque negativo o relatório do Ministério da Justiça. O desgaste começou no Paraná TV 2ª edição veiculado dois dias antes da eleição e se espalhou pela mídia impressa. Ao todo, em apenas duas semanas, foram 46 matérias. Mais uma vez, são os veículos da RPC que acentuam o desgaste pela linha de abordagem empregada. Os números do levantamento, que só depois do primeiro turno se revelariam equivocados, são detalhados em minúcias com o relato de ocorrências mais comuns. As manchetes colocam Curitiba e o Estado no topo da insegurança.
Tudo isso compôs um enredo noticioso que tinha Roberto Requião como alvo. A ausência de crítica da mídia a Osmar Dias o fez subir nas pesquisas. Ele também tira proveito de inserções em que aparece atacando o adversário, num cenário em que o próprio meio que lhe dá espaço, “pinta” um quadro caótico na condução do Estado. Tivesse o candidato de oposição o mesmo rigor na difusão de informações sobre as atividades políticas, o resultado da eleição para o governo do Paraná em 2006 poderia apresentar outros números.
Confira no anexo os gráficos do Relatório "A Imprensa do Paraná e a Eleição".
A Imprensa do Paraná e a Eleição

























